Évora, Património da Humanidade

O mais surpreendente será pensarmos que uma tal beleza começou por não existir. O lugar estava ali, estava ali a colina, o monte, a altura desafogada de onde os olhos poderiam abraçar um vasto horizonte, tão vasto que mais parecia estar a planície a empurrá-lo até ao infinito. Apesar de perto correr uma ribeira, daquelas que sempre atraíram e depois fixaram a morada dos humanos para lhes oferecer o alimento e o refresco do corpo, esta colina, que um dia viria a receber o mágico nome de Évora, só teve para dar, durante anos e anos sem conto, a mesma humildade de quantas a rodeavam – ser atalaia de pastores e mirante de viajantes perdidos à procura de um caminho. O destino dos lugares, porém, é como uma carta fechada à espera do gesto único que um dia a dará a conhecer. De quem fosse, a quem tivesse pertencido a mão que pela primeira vez veio colocar uma pedra sobre outra pedra na falda do monte a fim de construir um abrigo de vivos ou levantar uma casa de mortos – não se sabe. Nem nunca se saberá. Os primeiros homens e mulheres que escolheram para viver a colina de Évora não tinham para enterrar solenemente um cofre de prata ornado de cabochões com a acta da fundação da cidade que ainda haveria de ser, mas a memória da sua passagem por este lugar do mundo, se a soubermos procurar aparecer-nos-á tão viva como a presença do zimbório da Sé, que de tantas destas ruas se espreita. Algum vestígio dessas mulheres e desses homens primitivos perdurará ainda por aí, alguma fina poeira, algum entalhe na mais velha de todas as pedras, algum suspiro cansado que o ar naqueles dias recolheu e que a Évora constantemente retorna quando os ventos mudam. Diz-se que a história certificada é só aquela que tiver sido passada a escrito, mas a história autêntica da colina de Évora e das suas cercanias, a história que não teve ninguém que a descrevesse, mas que nem por isso foi menos substancial, essa história ilegível, inscrita na superfície do tempo, é o alicerce mais profundo sobre o qual se edificou, destruiu e tornou a edificar a cidade. Até hoje. O próprio topónimo, Évora, quando o pronunciamos, quando nos detemos a escutá-lo, ressoa na nossa boca e nos nossos ouvidos como a memória de uma voz arcaica. Chamaram-lhe Ebora os celtiberos, e como Ebora Cerealis a tem nomeado Plínio, o Velho, na sua História Natural, o que servirá para dar testemunho de que as planuras transtaganas já davam pão pelo menos dez séculos antes que os “alentejanos” (os que viveram e vivem além do Tejo…) se tornassem portugueses. Conta-se que foi sede de um talvez imaginário reino céltico-lusitano, o de Astolpas, sogro de Viriato, também se conta que mais tarde viria a ser fortificada por Sertório, mas isto não passa de uma lenda inventada no século XVI, quando se pretendeu que o general romano teria instalado na ainda incipiente localidade a sua capital. Mesmo depois que a Ebora lhe pusessem o nome de Liberalitas Julia, ainda Ebora continuou a ser, e quando Júlio César ou Vespasiano determinaram que se lhe chamasse Jus Latim Verus, é mais do que duvidoso que os eborenses se resignassem a dar todas essas voltas à língua em vez de dizerem simplesmente Ebora, como o haviam feito os avós dos seus tataravós. Curioso vocábulo, este. Se efectivamente foram os celtiberos que puseram o nome de Ebora à cidade e se, neste caso, a aparente filiação etimológica é algo mais do que uma ocasional coincidência, então haverá motivo para que nos perguntemos por que a teriam nomeado eles com uma palavra de raiz latina, pois que eboraria é a arte de esculpir o marfim, eborário o artista que o marfim trabalha, ebóreo o que de marfim é feito. Honra e gratidão, portanto, ao ignoto profeta, ao bruxo celtibero que leu o futuro e foi o primeiro a saber que uma cidade chamada Évora se tornaria, com o tempo, tão preciosa como o marfim. Regressaram à sua terra os romanos, de cujas construções civis e militares os azares da fortuna e as mudanças da estratégia só consentiram que herdássemos alguns troços do cinto de muralhas e o templo sem nenhuma razão chamado de Diana, a seguir aos romanos vieram os visigodos, depois os mouros, uns e outros ainda com menos ventura nas artes que os de Roma pois das suas obras, salvo uns restos de muros, nada ficou que tivesse perdurado até ao nosso tempo. Enfim, ao cabo de mais de quatrocentos anos de ocupação moura, chegaram os que então começavam a ser portugueses. Ia principiar a história da Évora que temos diante dos olhos, uma Évora que miraculosamente conseguiu sobreviver aos desastres e aos tumultos, às invasões e aos saques, aos caprichos e variações do gosto, aos egoísmos, às vaidades,às depredações antigas e modernas. O marfim velho de que Évora está feita resiste a tudo. A singularidade de Évora não deve, porém, ser procurada nas suas igrejas nem nos seus palácios. Palácios e igrejas é o que não falta pelo mundo fora, muitos deles, sem dúvida, de maior beleza e sumptuosidade do que estes que a invenção criadora e o engenho edificador das gerações portuguesas souberam erguer aqui. Évora podia ter a Sé, e apesar disso não ser Évora. Podia apresentar à admiração universal a relação completa dos seus monumentos, e Évora continuar a não ser. Podia enumerar e descrever com amorosa minúcia os méritos arquitectónicos e artísticos de S. Francisco e de S. Brás, dos Paços de D. Manuel e da Igreja da Graça, dos Lóios e do templo romano, do aqueduto da Água da Prata e do Seminário Maior, e ainda assim não chegaria a ser Évora. Há cidades que são sobretudo famosas pelos esplendores materiais que o tempo nelas foi depositando, ao passo que esta Évora seria sempre a Évora que profundamente sabemos ser, mesmo que um maligno passe de prestidigitação fizesse desaparecer da noite para o dia os seus atractivos mais evidentes, deixando-a apenas com a nudez das suas ruas e dos seus pátios, dos seus largos e calçadas, dos seus becos e travessas, das suas arcadas, dos seus terreiros. Com a nudez das suas frontarias, com a claridade das suas fontes, com o segredo das suas portas. Porque Evora é principalmente um estado de espírito, aquele estado de espírito que, ao longo da sua história, a fez defender quase sempre o lugar do passado sem negar ao presente o espaço que lhe é próprio, como se, com o mesmo olhar intenso que os seus horizontes requerem, a si mesma se tivesse contemplado e portanto compreendido que só existe um modo de perenidade capaz de sobreviver à precaridade das existências humanas e das suas obras: segurar o fio da história e com ele bem agarrado avançar para o futuro. Évora está viva porque estão vivas as suas raízes.

JOSÉ SARAMAGO, In Évora, Património da Humanidade

http://www.fikeonline.net/2001/pt/evora.php

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