PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES POR QUATRO ESTUDANTES

PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES POR QUATRO ESTUDANTES
DE EVORA EM 1589.

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LISBOA.
NA TYPOGRAPHIA DE G. M. MARTINS.
Rua do Ferregial de Baixo, 22.
1880. 
FESTAS BACCHANAES:

CONVERSÃO DO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DO GRANDE LUIZ DE CAMÕES
VERTIDOS DO HUMANO EM O DE-VINHO POR UNS CAPRICHOSOS AUCTORES: S.

O DR. MANOEL DO VALLE, BARTHOLOMEU VARELLA, LUIZ MENDES DE VASCONCELLOS,
E O LICENCIADO MANOEL LUIZ, NO ANNO DE 1589.

       *       *       *       *       *

NOTICIA.
Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se
fez no anno de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o
_Dr. Manoel do Valle_, deputado da Santa Inquisição, que compôz o livro
dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi _Bartholomeu
Varella_, natural de Vianna, junto a Evora, o qual falleceu, que era
irmão de Diogo Pereira, que foi este anno ás Côrtes, que El-rei D.
Filippe II fez em Lisboa, por Procurador d’esta cidade de Evora. Foi
Bartholomeu Varella clerigo e grandissimo poeta. O terceiro foi _Luiz
Mendes de Vasconcellos_, criado do Arcebispo D. Theotonio; o qual posto
que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o
ultimo da oitava 17; porque estando elles suspensos no cuidado de
completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

_Porque este é o que aguenta a velha idade_, acudiu o dito Luiz Mendes,
concluindo:

_Desterrando a agua-pé d’esta cidade._

O quarto e principal auctor foi o Licenciado _Manoel Luiz_, Bacharel; e
este anno de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor
d’esta obra, e a fez quasi toda, ou o melhor d’ella.

Quando a fizeram eram então todos theologos; e ás tardes, acabado o
estudo, sahiam pela porta de Machede, e assentados em um ferrageal, iam
traduzindo para a bebedice as taes oitavas de Camões, fingindo uma
embarcação de Lisboa para Evora, como Camões a de Portugal para a India
Oriental; e compozeram a tal obra dentro em dois mezes, no cabo dos
quaes sahiram com ella: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma
applicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir
todas as tardes para fóra dos muros, e communicarem seus papeis, sem
darem conta d’isso a ninguem.

Finalmente, sahida a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e
lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutissimo da Companhia, do
qual o Dr. Manoel do Valle traz uma carta no seu livro) e fallando-se
n’ella, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca sahira nem elle
vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quiz emendar como entendia, d’onde
vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu,
esta que aqui vae, a trasladei do proprio original e letra de
Bartholomeu Varella, que está em poder do Chantre da Sé d’esta cidade,
Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varella, e lhe fiz algumas
cotas para intelligencia da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu
_Francisco Soares Toscano_ o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.
FESTAS BACCHANAES.
ARGUMENTO.
_Fazem concilio os bebados de porte,
Oppõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;
Favorece-os o Catigela forte,
No Lamarosa tem seu lava-dente.
De inveja Lyeo lhes busca a morte,
Descendo a Monte-mór contra esta gente,
Que vê em rio Mourinho a acção traidora,
E a Peramanca chega vencedora_.
I.
Borrachas, borrachões assignalados,
Que de Alcochete junto a Villa Franca,
Por mares nunca d’antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permitte a gente branca,
Em Evora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:
II.
Tambem as bebedices mui famosas
D’aquelles que andaram esgotando
O imperio de Baccho, e as saborosas
Agoas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valerosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baccho, e não Marte.
III.
Cessem do Novellão, do gran Barbança
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carrança
A multidão dos vinhos que beberam,
Que eu canto d’outra gente e d’outra lança,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.

(…)

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